Depois de alguns dias de ausência para um curto descanso sob o Sol das Caraíbas, afastado de todas as notícias, haveria muitas situações para comentar. Mas o que venho aqui fazer é contar-vos um episódio que vivi nessa viagem, numa noite quente de primavera na Jamaica.
Estava, após o jantar, a assistir àqueles espectáculos que se vão vendo pelos resorts de todo o Mundo, quando um hóspede mais efusivo (e descobri mais tarde que não era euforia etílica) começou a atrair as atenções pela sua participação espontânea e alegre no evento. Depois de muito me divertir com isso, este senhor, que aparentava cerca de 60 anos e que parece ter reparado na piada que lhe achei, dirigiu-se a mim e à minha mulher convidando-nos para nos juntarmos à sua mesa.
Nessa mesa estava, para além da sua mulher, um casal de polacos radicados nos EUA e um outro de Canadianos de Montreal. Ora este meu amigo era Argentino e não falava outro idioma que não o Castelhano, o que não parecia constituir para ele qualquer entrave, visto conseguir comunicar muito bem assim mesmo, devido à sua maneira extrovertida e alegre. Visto eu ser o único com quem ele podia realmente conversar, e sendo ele do país das pampas, o tema foi naturalmente futebol.
Assim que referi o Benfica os seus olhos brilharam. Quando lhe falei da admiração que sinto, como jogador mas principalmente como homem, por Pablo César Aimar, vi com espanto como ele se comoveu com as minhas palavras. A explicação que me deu comoveu-me a mim. César, era este também o seu nome, é natural de Rio Cuarto, Córdova, cidade natal de Pablito, e conhece-o desde menino. Jogou muitas vezes futebol com o seu pai e o próprio Aimar era visita frequente da sua quinta onde jogava com os seus filhos.
Falou dele com o orgulho de quem também se sente um pouco seu pai. Como sempre foi um excelente menino, com uma educação esmeradíssima, fruto de seus pais serem também excelentes pessoas e uma muito feliz família, e com uma cultura e inteligência rara de encontrar em jogadores de futebol. Contou-me o quanto lhe custou ir para Buenos Aires ainda muito jovem, perseguindo o sonho de se tornar profissional, mas nunca descurando os estudos, tendo inclusivamente chegado a frequentar o curso de medicina.
A tudo isto a sua mulher, Cármen, ia abanando a cabeça em concordância e repetia variadas vezes "el é un encanto de un chico". Foi para mim uma noite fabulosa. Tudo aquilo que eu pensava que Pablito é foi-me confirmado por quem o viu crescer. A admiração que por ele tinha, e era já imensa, tornou-se ainda maior. E maior ainda por saber o carinho com que Pablito fala, no seu país, do nosso grande Benfica. Sei também agora que tem imensas saudades do seu país e é para lá que quer regressar quando acabar a sua carreira profissional mas mantenho uma esperança de que possa, de alguma maneira, continuar ligado ao nosso clube. É que homens como Aimar são hoje, infelizmente, raros.
O Lampião do Norte